MINHA FANTASMA E EU
O REENCONTRO
Dois homens carregavam um grande caixote de madeira do tamanho de um
caixão de defunto para dentro da Bai-Bai Serviços Funerários quando um deles
ouviu um ruído estranho. Procurou disfarçar, mas o amigo percebeu.
_ Algum problema, Gil? _ Apesar de trabalhar
ali há meses, Téo sentia um certo desconforto com o lugar.
_Nada não. Deve ser um rato.
_ O patrão mandou desratizar na semana passada. _ Deu um riso nervoso. _
É impressão sua. Vamos me ajude a colocar ali naquela mesa.
_ Sinto pela dona Dolores. Ninguém merece ser atropelado em Dia de
Finados. O enterro de hoje terá cheiro de vela derretida.
_ Por outro lado, o cemitério estará todo florido. Não é tão ruim assim.
Anda! Ajude-me aqui. Preciso adiantar os documentos no cartório e a gente ainda
tem que arrumar o corpo da dona Dolores antes do seu Vagner chegar. Não é
porque eles têm pouco dinheiro que ela vai partir toda desarrumada.
_ Deixa que eu cuido disso. Vai lá resolver a papelada _ ofereceu
Giliard, para a alegria do amigo.
Coitada dessa outra também – Téo lamentou a morte da motorista sob o
lençol enquanto procurava os papéis para dar entrada na certidão de óbito. O Fiat
era alugado e ninguém sabe quem ela é. A carteira sumiu e parece que perderam o
documento da moça na empresa de aluguel de carros. Vai como indigente. _
Interrompeu o que estava fazendo e virou-se para Giliard: _Mas nada disso
atrapalhará a festinha de hoje, não é? Afinal, não é todo dia que você completa
outra dezena. Consegui dar um perdido na Ceição e estou liberado até meia
noite! Talvez até uma da manhã.
Além de trabalhar na funerária, Giliard tinha uma marcenaria de fundo de
quintal e fornecia caixões baratos para a cidade. Téo era coveiro, fotografo de
funerais, recepcionista, despachante e faz-tudo da Bai-Bai. Ele saiu apressado
para conseguir resolver a burocracia antes que o marido da defunta viesse
reclamar o corpo.
Giliard passou o corretivo no rosto dela para disfarçar as manchas da
pele. O blush devolveu o jovial tom corado, necessário para o evento que se seguiria.
Uma echarpe colorida cobriu o ferimento no pescoço. Estava pronta.
_ O cabelo deve ser penteado para o outro lado.
Penteou o cabelo para o lado oposto e deu o serviço por terminado.
Fechou o caixão.
Giliard tinha um dom. A comunicação com os desencarnado só ocorria se
estivesse próximo aos seus restos mortais. Uma vez que o corpo era levado, tal
ligação era quebrada. Nunca falara disso pra ninguém. Loucura tem cheiro ruim,
e ele não queria que lhe apontassem o dedo.
A Bai-Bai Serviços Funerários era procurada até mesmo por gente de fora
de Caximbiribas. Tamanho sucesso era compreensível. A empresa conseguia fazer
com que os mortos ficassem com uma aparência tão boa que parecia que eles
mesmos se arrumavam, do jeitinho que faziam quando estavam vivos.
“Dê uma recado para minha filha”, “Nunca gostei desse vestido”, “Quero
ser enterrado com meu relógio de ouro”, “Achei o caixão cafonérrimo” Os pedidos
eram seguidos a risca. O pobre homem não tinha tempo para mais nada. Seu dom se
transformara em um fardo pesado demais para ser carregado sozinho. Até esse
dia...´
_ É você, Gil?
_ Silvana? Perguntou surpreso.
_ Ela mesma. Tinham se conhecido no orfanato e dado o primeiro beijo aos
quinze ano.
Gênero textual: romance infantojuvenil de
fantasia sobrenatural. Temas abordados: morte, luto, sobrenatural, amor,
amizade...
A) o cotidiano de trabalhadores que atuam em
uma empresa funerária.
B) o reencontro inesperado entre um homem e uma
pessoa de seu passado.
C) as dificuldades enfrentadas por famílias
durante os preparativos de enterros.
D) o trabalho de um funcionário que esconde
suas habilidades dos colegas.
2. De acordo com o texto, por que a Bai-Bai
Serviços Funerários era tão procurada?
A) Porque oferecia os enterros mais baratos
para qualquer família da região.
B) Porque resolvia toda a documentação antes da
chegada dos parentes.
C) Porque os mortos pareciam ficar arrumados
como quando estavam vivos.
D) Porque atendia apenas moradores antigos da
cidade de Caximbiribas.
3. Ao esconder seu dom de conversar com os
mortos, Giliard demonstra que
A) prefere aceitar as opiniões dos outros sem
fazer questionamentos.
B) evita revelar sua experiência por medo de
ser julgado como louco.
C) deseja convencer as pessoas de que seu dom é
verdadeiro.
D) pretende abandonar o trabalho para não lidar
com os mortos.
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