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quarta-feira, 18 de março de 2020

CONTO OS DOIS PAPUDOS INTERPRETAÇÃO 6º ANO







CONTO OS DOIS PAPUDOS

    Ruth Guimarães

        Vivia numa povoação um alegre papudo, estimado de todos, muito folgazão e boêmio. Não o impedia o papo de soltar grandes risadas. Pouco se lhe dava que o achassem feio, ou o chamassem de papudo. A verdade é que o tal papo o incomodava, mas o que não tem remédio remediado está, filosofava ele. E vamos tocar viola, e vamos amanhecer nos fandangos, viva a alegria, minha gente, que se vive uma vez só.
        Certo dia, foi ao povoado vizinho, a uma festa de casamento, levando embaixo do braço a inseparável viola. Demorou mais que de costume, bebeu uns tragos a mais, porém não deixou de voltar para casa, pois era tão trabalhador quanto festeiro, e tinha que pegar no serviço no outro dia bem cedo.
       Havia luar. Num grande estirão avistava a estrada larga, as touceiras de mato. Passava o gambá por perto dele, e o tatu, roncando, e voava baixo, silenciosamente, a corujinha campeira. O papudo não sentia medo. Andava em paz com Deus e com os Homens. Os animais, que adivinham nele um homem de coração compassivo, também não tinham medo dele.
       De repente, ao virar numa curva, viu embaixo da figueira brava, ramalhuda, uma roda de anões cantando. Todos com capuzes vermelhos, cachimbo com a brasa luzindo, a barba branca comprida, descendo até a altura do peito.
        -- O que será aquilo?
       Por um instante teve algum temor. Mas era tarde para fugir. Os foliões já o tinham visto. E, se se tratava de festa, isto era com ele. Saltou decidido para o meio da roda, empunhando a viola.
       -- Eu também sei cantar.
       Enquanto pinicava as cordas, prestava atenção às palavras dos dançarinos. Eles entoavam:
      Segunda, terça
      Quarta, quinta...
      E tornavam ao começo:
      Segunda, terça
      Quarta, quinta...
      E assim sempre, numa musiquinha muito cacete. Acostumado aos desafios, a improvisar, o papudo esperou a sua deixa. Assim que os anões começaram:
      Segunda, terça
      Quarta, quinta...
      Ele emendou:
      Sexta, sábado
      Domundo também.
      A roda pegou fogo. Os pequenos duendes barbudos gostaram da novidade. Rodopiavam cantando numa animação delirante, e foi assim a noite toda. E o papudo tocando e dançando.
      De madrugada, ao primeiro cantar do galo, a roda se desfez. O mais velho deles, e que parecia o chefe, perguntou-lhe:
       -- Que é que você quer, em paga de ter tocado para nós?
       -- Eu até que me diverti com esta festa - replicou o papudo.
       -- Mas peça qualquer coisa.
       -- Posso pedir seja o que for?
       -- Pode.
       -- Eu queria - disse ele, meio hesitante - queria me ver livre deste papo, que me incomoda muito.
      Um anãozinho agarrou o papo com as duas mãos, subiu pelo peito do papudo, firmou bem os pés, deu um arrancão.
      O papudo fechou os olhos.
      -- Agora eles me matam.
      De repente sentiu o pescoço leve. Abriu os olhos. Os anõezinhos tinham sumido. Não ouviu mais nada. Meio cinzento, despontava o dia.
       "Sonhei", pensou ele. "Bebi demais naquele casamento."
       Passou a mão pelo pescoço, estava liso, sem excrescência nenhuma.
       "Agora fiquei mais bonito", pensou também, muito satisfeito.
       E aí deu com o papo jogado em cima do cupim.
       Agarrou a viola e foi para casa.
       Imagine-se a sensação que não foi, o papudo amanhecer, sem mais nem menos, sem o papo.
      -- Que milagre foi esse? - perguntavam.
      Papudo ria, papudo cantava, continuava folgazão como sempre, mas não contava a aventura, de medo que o chamassem de louco, e não acreditassem.
      Esse moço tinha um compadre, que também era papudo.
      E tanto apertou o amigo, e tanto falou:
      -- Eu também quero me ver livre desse aleijão. Quero ficar bonito, e arranjar uma namorada. Você não é amigo.
      Foi assim, até que o moço lhe contou tudo.
      O outro encarou, incrédulo.
      -- Verdade?
      -- Verdade.
      -- O anão falou que você podia pedir o que quisesse?
      -- Falou.
      -- E você em vez de pedir riquezas, pediu para ficar sem o papo?
      -- Ora, pobreza não me incomoda, mas o papo incomodava.
      -- Mas você é louco. Você é um burro. Pedisse riqueza. Quem é rico, que é que tem o papo? Quem se incomoda com papo? Eu, se fosse rico, me casaria com uma mulher bonita, do mesmo jeito.     Você é bobo. Onde é esse lugar, onde você encontrou os fantasmas?
      O outro preveniu:
      -- Compadre, você vai lá com esganação, vai ofender os anõezinhos, e ainda se arrepende.
      -- Nada disso. Você o que é, é um egoísta. Está formoso, que se danem os outros.
      Aí o moço encolheu os ombros e falou:
      -- Sua alma, sua palma. Vá lá, depois não se queixe.
      Ensinou onde era, o compadre invejoso agarrou a viola e foi, noite alta, direitinho como o outro tinha feito. Também era noite de luar. Também dançou a noite inteira, cantando. Ao primeiro cantar do galo a roda se desfez.
      -- Que é que você quer, em paga de ter tocado para nós?
      O papudo deu uma piscadela maliciosa para o anão e falou, esfregando o indicador e o polegar, no gesto clássico, que significa dinheiro:
      -- Eu quero aquilo que o meu compadre não quis.
      Um anãozinho foi ao cupim, tirou o papo do outro que estava lá, e grudou em cima do papo do invejoso.
      E assim, por sua louca ambição, ele ficou com dois papos.

                                                 GUIMARÃES, Ruth (org.). Lendas e fábulas do Brasil, 4. ed. São Paulo: Cultrix, 1972.

Fonte: Livro - Para Viver Juntos - Português - 6º ano - Ensino Fundamental- Anos Finais - Edições SM - p.50 a 53..


TEXTO EM ESTUDO

1. Sua hipótese sobre como eram as personagens se confirmou? Justifique.
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2. O conto tem como personagens dois homens com uma característica peculiar.
a) Que característica é essa? Os dois homens se sentem satisfeitos com ela?
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b)Como as pessoas da história reagem a essa característica das personagens?
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c) Ao longo do conto, há uma oposição entre as duas personagens principais. Qual é a diferença entre elas?
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3. Releia o sexto parágrafo do texto.
a)Por que os foliões provocam medo no homem?
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b) Que estratégia a personagem usa para enfrentar a situação?
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c) Como se caracteriza, no texto, o ambiente onde se passa a ação?
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4. Por que os anões transformaram os homens?
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5. No fim do conto, as duas personagens principais foram modificadas.
a) Que mudanças ocorrem com cada personagem?
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b) Por que elas aconteceram?
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ANOTE AÍ
Os contos populares são narrativas da tradição oral que expressam costumes, ideias, valores e tradições de um povo ou de determinada cultura. Uma característica frequente nos contos populares é a presença de seres com poderes sobrenaturais, que pronunciam palavras mágicas e lançam feitiços ou encantos.

OTEMPO NARRATIVO

6. Observe as expressões iniciais do primeiro e do segundo parágrafos: "Vivia numa povoação" e "Certo dia".
a) Qual delas indica que ocorrerá uma mudança na história?
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b) Qual delas marca quando acontece a narrativa?
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7. Que expressões indicam quando terminam os encontros com os anões?
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8. Se as expressões apontadas nas questões 6 e 7 não fossem utilizadas, que efeito isso causaria no conto?
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9. Em quanto tempo se desenvolveram as ações narradas na história?
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ANOTE AÍ

       Nos contos populares não é especificado o momento histórico em que o fato acontece. Para indicar o tempo nessas narrativas, costuma-se usar expressões que sinalizam um passado distante e impreciso, como nos contos de fadas. Essas expressões temporais remetem a um tempo imaginário, e não a um tempo real.
       Nos contos também são usados marcadores de tempo, expressões que indicam o tempo narrativo, dando ideia do momento em que determinadas ações acontecem e da I ordem em que os fatos se desenvolvem na história.
       Em geral, o tempo narrativo segue uma ordem linear ou cronológica (passado - presente - futuro). No entanto, nem toda história segue essa ordem, ou seja, os fatos também podem ser apresentados de modo não linear



O CONTEXTO DE PRODUÇÃO
10. Leia uma fala de Ruth Guimarães sobre como recolher boas narrativas.
[...] "Não chegue pedindo para que te contem uma história'', dizia, "Conte uma primeiro. Os que pensarem que você é louco, irão embora. Os que têm histórias para contar, vão se aproximar e dividi-las com você."
a)  Como Ruth Guimarães descobria as histórias que registrava em livros?
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b)  É possível saber, por esse trecho, se as pessoas que reagiam contando outras histórias eram necessariamente as produtoras da narrativa que contavam?
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11. Releia este trecho do conto:
“Certo dia, foi ao povoado vizinho, a urna festa de casamento, levando embaixo do braço a inseparável viola. [...] tinha que pegar no serviço no outro dia bem cedo.”
a)  Por esse trecho, o que podemos perceber sobre a vida da personagem?
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b)  Em que ambiente é comum a viola ter destaque?
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A LINGUAGEM DO TEXTO
12. Reescreva esta frase substituindo os termos destacados conforme indicado. Compadre, você vai lá com esganação, vai ofender os anõezinhos {...j.
a) Use termos com sentido parecido, considerando que a frase seria dita pela própria personagem do conto, mas de forma diferente.
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b) Use termos com sentido parecido, considerando que a frase seria dita por você para um colega.
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c) Nas respostas aos itens a e b, você utilizou as mesmas palavras? Por quê?
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13. Observe o trecho a seguir: "O papudo deu uma piscadela maliciosa para o anão [...]". Ao utilizar a palavra em destaque, o narrador parece revelar que ideia sobre a personagem?
ANOTE  
Os contos populares relacionam-se à memória e à cultura de uma comunidade. São contados oralmente em situações informais. Por serem criações coletivas, não há como determinar como surgiram e quem os criou. Quem os reconta pode introduzir mudanças e também costuma manter o modo de falar das regiões e comunidades nas quais as histórias se originam, bem como as marcas da época em que as narrativas foram recolhidas.

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